A Crise do Norte Global
Uma crise politica e moral e um processo geopolítico isolacionista americano.
GEOPOLÍTICA
Bruno Pereira Ferreira
12/13/20255 min read
“O Ocidente construiu a modernidade, mas agora enfrenta o próprio esgotamento.
Crises econômicas, populismo, desigualdade e descrença corroem sua hegemonia.
Estamos assistindo ao fim de uma era?”
A crise do Norte Global não é um fenômeno repentino, mas o resultado histórico de um longo processo de expansão econômica marcado por ciclos recorrentes de crescimento e colapso. O capitalismo, que teve origem nas feiras de comércio medievais, avançou com as Grandes Navegações, consolidou-se na Revolução Industrial e expandiu-se por meio das grandes empresas, dos oligopólios e das bolsas de valores. A quebra da Bolsa de Nova York, em 1929, evidenciou de forma incontestável que o capitalismo, embora altamente produtivo, carrega contradições estruturais. Desde então, as economias dominantes do Norte Global não apenas concentram riqueza, mas também impõem valores culturais, políticos e morais de matriz ocidental, historicamente construídos sobre fundamentos cristãos.
O mundo ocidental sempre conviveu com avanços tecnológicos, progresso econômico e, simultaneamente, com desigualdades profundas e assimetrias sociais. Ainda assim, o Norte Ocidental consolidou-se como o principal centro de definição da política, da economia e da geopolítica global. A própria concepção da História foi moldada por pensadores europeus ao longo dos séculos, especialmente durante o Iluminismo, período em que se estruturou um pensamento racional, universalizante e eurocêntrico. A Igreja Católica Romana, enquanto instituição milenar, desempenhou papel central na preservação dos valores cristãos, posteriormente reformulados e adaptados com o surgimento do protestantismo. A divisão religiosa, longe de ser apenas espiritual, esteve profundamente ligada à ascensão da burguesia e à legitimação da busca por lucro e riqueza.
O pensamento ocidental, sobretudo a partir da ética protestante, foi decisivo para o crescimento econômico moderno. O lucro passou a ser compreendido não apenas como resultado do trabalho, mas como sinal de virtude e mérito individual (WEBER, 2004). Dessa forma, religião e economia se entrelaçaram, criando uma filosofia que dialogou diretamente com os ideais iluministas. As sociedades ocidentais passaram a defender a racionalização do Estado, a divisão dos poderes e a organização republicana, ideias difundidas por pensadores como Montesquieu e amplamente adotadas, inclusive, na América Latina. Nesse contexto, a História foi narrada sob uma ótica eurocêntrica, a política estruturada segundo princípios iluministas, a economia moldada pelo capitalismo e a geopolítica global definida inicialmente pelas potências europeias e, posteriormente, pelos Estados Unidos. No entanto, esse modelo passa, hoje, por um processo visível de desgaste.
A modernidade ocidental foi construída a partir da articulação entre História, Política, Economia e Geopolítica, sustentadas pelo Iluminismo e por um cristianismo reformulado. Contudo, a transformação do lucro em um fim absoluto gerou uma crise moral profunda. A lógica da ganância e do sucesso individual passou a determinar o valor das pessoas, produzindo frustrações, conflitos sociais e um crescente esgotamento econômico e emocional. A falta de perspectivas de futuro reflete-se em sociedades com baixas taxas de natalidade, no adiamento das etapas da vida e na substituição do compromisso comunitário por práticas de entretenimento imediato e consumo excessivo.
O populismo passa agora a ser debatido também nos Estados Unidos, com o surgimento de Donald Trump. Frases de efeito para impressionar a multidão, respostas ríspidas à imprensa e um posicionamento agressivo, com uma geopolítica desastrosa que busca o fortalecimento excessivo dos Estados Unidos, evidenciam isso. O aumento de tarifas por parte dos Estados Unidos, deixando de lado novos atores da política global, como Brasil, Rússia, Índia e China — economias cada vez mais importantes para a manutenção da economia global — reforça esse cenário.
A crise do norte passa não apenas pela geopoltiica americana, porém or uma busca incessante por bens, tecnologia e conforto material contribuiu para a formação de sociedades acomodadas, marcadas pela fragilidade dos vínculos humanos, pela desconfiança social e pelo isolamento. O enfraquecimento das relações comunitárias e o afastamento de milhões de pessoas das instituições religiosas revelam uma crise mais profunda: a religião, em muitos casos, deixou de ser um elo entre o ser humano e o transcendente, tornando-se apenas um espaço de sociabilidade ou de aparência moral.
Historicamente, a moralidade cristã esteve associada à organização social, ao equilíbrio entre trabalho, consumo e solidariedade. Sociedades estruturadas em etapas da vida, com expectativas claras e limites definidos, tendem a apresentar maior estabilidade econômica e social. Em contrapartida, a lógica do lucro pelo lucro estimula práticas ilícitas, corrupção, violência e o crescimento de economias paralelas, como o tráfico de drogas e os esquemas financeiros fraudulentos. O endividamento contínuo, impulsionado pelo consumo descontrolado e pela financeirização da economia, concentra riquezas em bancos e grandes corporações, enquanto amplia a insegurança e o estresse social. Nesse ambiente, multiplicam-se promessas de enriquecimento rápido, apostas milagrosas e esquemas ilegais, gerando uma contradição evidente entre o discurso cristão e a prática cotidiana de grande parte da sociedade.
A crise política acompanha esse processo. Líderes e partidos alimentam a ilusão de estabilidade por meio de promessas vazias, manipulação da opinião pública e alianças com grandes corporações, inclusive organizações criminosas. A ausência de projetos pragmáticos, honestos e transparentes evidencia o esgotamento da política ocidental. A redução da participação popular nas eleições, especialmente em países centrais como os Estados Unidos, revela a perda de confiança nas instituições democráticas. O poder econômico passa a determinar decisões políticas em todos os níveis, enquanto a sociedade permanece presa a um sistema permanentemente instável, marcado por crises econômicas, políticas e sociais, decorrentes da ausência de propósito coletivo e de perspectivas de longo prazo.
O anúncio do fim da era do progresso não é recente, mas torna-se cada vez mais evidente no século XXI. Ainda assim, a busca por soluções e por uma reorganização da ordem global permanece aberta. Pensar a História como um processo de progresso civilizatório, promover o consumo consciente, incentivar práticas sustentáveis e fortalecer o engajamento comunitário são caminhos possíveis para a reconstrução social. A solidariedade, o respeito, a boa educação e a responsabilidade coletiva não se limitam à fé religiosa, mas constituem fundamentos essenciais para qualquer sociedade equilibrada.
Os governos do Ocidente precisam assumir o papel de mediadores de uma nova ordem social, mais justa e menos desigual. Políticas públicas voltadas à valorização da família, à reconstrução do sentido comunitário, ao trabalho digno e ao engajamento real dos indivíduos nas empresas e instituições podem contribuir para a formação de uma cultura de estabilidade, pertencimento e felicidade. Reorientar o progresso não significa negá-lo, mas redefinir seus objetivos, colocando o ser humano, a sociedade e o planeta no centro das decisões, antes que o colapso econômico e social se torne irreversível.
Referências Bibliográficas
WEBER, Max. A ética protestante e o espírito do capitalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.
HOBSBAWM, Eric. A era dos extremos: o breve século XX. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
POLANYI, Karl. A grande transformação. Rio de Janeiro: Campus, 2000.
BAUMAN, Zygmunt. Vida líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2007.
