As Guerras do Passado ao Século XXI
Um processo de evolução geopolítica.
GEOPOLÍTICA
Bruno Pereira Ferreira
12/16/20254 min read
“Hoje, as guerras não se travam apenas com tanques e soldados, mas com dados, chips, algoritmos e satélites. Quem controla a tecnologia, controla o poder. Estamos entrando na era das guerras invisíveis.
As guerras definiram economias, fronteiras e o controle de regiões inteiras ao longo da história da humanidade. Aos povos conquistados, impuseram-se línguas, religiões e modelos econômicos. Os conflitos armados também foram decisivos para o avanço das tecnologias e das estratégias militares, influenciando profundamente o pensamento, o comportamento e a organização das sociedades humanas. No século XXI, contudo, as guerras mudaram drasticamente e continuam em constante transformação.
Na Antiguidade, os conflitos entre os povos da Ásia Menor e da Mesopotâmia — como hititas, babilônios, neobabilônios e assírios — foram marcados por disputas territoriais contínuas em busca de recursos naturais, rotas comerciais e hegemonia política. Esses povos desenvolveram técnicas militares cada vez mais sofisticadas, adaptando-se às condições geográficas e aos inimigos dominados.
Posteriormente, grande parte do mundo mediterrâneo passou a viver sob o domínio do Império Romano, que expandiu suas fronteiras de forma extraordinária e construiu um dos maiores e mais duradouros impérios da Antiguidade. Essa expansão foi possível graças a um poderoso exército profissional, organizado em legiões, sustentado por táticas inovadoras, disciplina rigorosa e constante vigilância das fronteiras. Os romanos aperfeiçoaram armamentos, como espadas e armaduras, além de inovarem nas estratégias de combate e logística militar.
Ao longo dos séculos, após sucessivas guerras e conflitos, a existência de exércitos permanentes e organizados tornou-se fundamental para a formação do mundo moderno. A Revolução Francesa, no final do século XVIII, produziu a figura de Napoleão Bonaparte, que centralizou a administração do Estado e construiu um poderoso exército nacional. Suas campanhas militares transformaram a guerra europeia, destacando-se pelo uso da mobilidade, da artilharia e de grandes contingentes de tropas. Contudo, a campanha da Rússia, em 1812, revelou os limites desse modelo: o rigoroso inverno e os graves problemas logísticos levaram à derrota francesa e ao enfraquecimento definitivo de Napoleão.
O desenvolvimento de armas e táticas de guerra foi essencial para o mundo ocidental. A pólvora, os canhões e, posteriormente, o aperfeiçoamento das armas de fogo tornaram-se elementos centrais dos conflitos modernos. No século XX, a Primeira Guerra Mundial introduziu novas formas de combate, como a guerra de trincheiras, o uso de gases tóxicos e, pela primeira vez em larga escala, a aviação militar. A Segunda Guerra Mundial aprofundou esse processo com o uso massivo de tanques, estratégias de guerra relâmpago (Blitzkrieg), bombardeios aéreos e, ao final, a utilização de armas de destruição em massa, como as bombas atômicas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki, no Japão.
O fim da Segunda Guerra Mundial inaugurou um período de intensa tensão geopolítica conhecido como Guerra Fria, marcado pela disputa entre duas superpotências: os Estados Unidos e a União Soviética. Esse mundo bipolar foi caracterizado pela corrida armamentista, especialmente nuclear, e por conflitos indiretos em diversas regiões do planeta. Com o colapso da União Soviética, em 1991, o sistema internacional passou a ser caracterizado por uma configuração inicialmente unipolar, com predominância dos Estados Unidos, especialmente durante a década de 1990, frequentemente chamada de “década americana”.
Entretanto, os conflitos no Afeganistão e no Iraque, a partir dos anos 2000, associados à expansão do terrorismo internacional, evidenciaram novas formas de guerra. Surgiu com maior intensidade o conceito de guerra invisível ou guerra híbrida, caracterizada pelo uso de drones, satélites, sistemas de vigilância, ciberataques, inteligência artificial e forças especiais altamente treinadas. Diferentemente das guerras napoleônicas, marcadas por exércitos de centenas de milhares de soldados em campos de batalha, os conflitos contemporâneos tendem a empregar contingentes reduzidos, altamente especializados e tecnologicamente avançados.
Porta-aviões, por exemplo, tornaram-se centros estratégicos do poder militar e geopolítico, especialmente para os Estados Unidos, garantindo domínio naval, capacidade de projeção de força e vigilância global. Ao mesmo tempo, os estrategistas contemporâneos passaram a retomar obras clássicas do pensamento militar, como A Arte da Guerra, de Sun Tzu, adaptando seus princípios à era da informação e da tecnologia digital.
Atualmente, a hegemonia militar e tecnológica norte-americana enfrenta novos desafios. A China construiu um exército moderno e inovador, investindo pesadamente em tecnologia, inteligência artificial e poder naval. A Rússia, herdeira militar da União Soviética, reestruturou suas forças armadas e reafirmou sua influência regional e global. Países emergentes também passaram a investir em defesa e tecnologia militar. O Brasil, embora não seja uma potência bélica global, possui o maior exército da América Latina e desenvolve, ao longo dos anos, uma estratégia de defesa voltada à soberania nacional, com projetos próprios nas áreas terrestre, naval, aérea e cibernética.
Portanto, ao longo da história, a geopolítica dos países sempre foi além do comércio e das trocas econômicas. As guerras e os exércitos moldaram fronteiras, impérios e a ordem internacional. As duas guerras mundiais definiram os rumos da história contemporânea, e, no século XXI, o uso intensivo da tecnologia tornou-se central para a formulação de novas estratégias militares. Cada vez mais, os seres humanos controlam sistemas de guerra à distância, reduzindo o combate direto corpo a corpo. Diante desse cenário, surge uma questão fundamental: estamos caminhando para um mundo em que exércitos de máquinas e robôs protagonizarão os conflitos, ou isso ainda pertence ao campo da ficção científica e de um futuro distante?
Referências Bibliográficas
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SUN TZU. A Arte da Guerra. São Paulo: Martins Fontes, 2002.
TILLY, Charles. Coerção, Capital e Estados Europeus. São Paulo: Edusp, 1996.
GRAY, Colin S. Guerra, Paz e Relações Internacionais. Brasília: Editora UnB, 2011.
KISSINGER, Henry. Ordem Mundial. Rio de Janeiro: Objetiva, 2015.
