China, Índia e Brasil: o Triângulo do Futuro
O novo comercio mundial.
GEOPOLÍTICA
Bruno Pereira Ferreira
12/15/20254 min read
Três civilizações milenares, três gigantes do século XXI.
China, Índia e Brasil começam a redesenhar a geopolítica global.
Juntos, podem criar um novo centro de gravidade do mundo.
O comércio triangular surgiu há muito tempo entre diferentes países e regiões do mundo. Um dos exemplos mais conhecidos foi o comércio atlântico entre Europa, América do Sul, Caribe e América do Norte, no qual o tráfico de escravizados africanos perdurou por séculos. Com o passar do tempo, novas rotas comerciais foram estabelecidas, entre elas a busca europeia por especiarias no Oriente, especialmente na Índia. Nesse contexto das grandes navegações, o território que hoje conhecemos como Brasil foi alcançado pelos portugueses. Há debates historiográficos sobre se essa chegada foi acidental ou intencional, já que mapas e conhecimentos náuticos indicam que os europeus suspeitavam da existência de terras a oeste do oceano Atlântico.
O comércio marítimo foi sendo aperfeiçoado desde o período das grandes navegações e ganhou grande impulso com a Revolução Industrial. A expansão das máquinas a vapor, dos navios modernos e das locomotivas encurtou distâncias, acelerou fluxos comerciais e intensificou a colonização europeia sobre diferentes povos e territórios, aproximando economicamente o mundo.
No século XX, os Estados Unidos assumiram a liderança da produção industrial e do sistema econômico global. Ao final desse século, com o colapso da União Soviética, o mundo deixou de ser bipolar. Contudo, não se pode afirmar que o socialismo como ideologia tenha sido “morto”, mas sim que perdeu sua centralidade como modelo dominante alternativo ao capitalismo liberal. Paralelamente, ocorreu a independência de diversos países africanos e asiáticos, entre eles a Índia, em 1947. A reestruturação política e econômica da Índia e, posteriormente, da China foi fundamental para o surgimento de uma nova agenda geopolítica ligada ao chamado Sul Global.
A China, uma das civilizações mais antigas do mundo, viveu longos períodos de conflitos internos entre dinastias e regiões. A construção da Grande Muralha, ao longo de séculos, teve como objetivo principal a defesa contra invasões do norte, e não exatamente o isolamento do Ocidente. Ainda assim, o país passou por fases de relativo isolamento, o que contribuiu para que fosse superado tecnologicamente pelas potências europeias durante o século XIX. Após a Revolução Chinesa de 1949, o Partido Comunista Chinês consolidou o poder e implantou um modelo socialista centralizado que, inicialmente, gerou graves crises econômicas e sociais. A partir do final da década de 1970, com as reformas de Deng Xiaoping, a China passou por uma transformação radical ao adotar o chamado “socialismo de mercado”, criando zonas econômicas especiais e abrindo espaço para investimentos estrangeiros. A combinação entre planejamento estatal, incentivo governamental, industrialização acelerada e intensa migração do campo para as cidades permitiu a retirada de centenas de milhões de pessoas da pobreza e projetou a China como uma potência global.
Nesse cenário geopolítico emergiu também a Índia, outra civilização milenar profundamente ligada às tradições do hinduísmo e do budismo. Após sua independência do Reino Unido, a Índia buscou consolidar sua soberania política e estruturar seu desenvolvimento econômico. A partir do final do século XX, o país passou a investir fortemente em educação, tecnologia da informação e serviços, tornando-se um polo global de call centers, desenvolvimento de software e inovação tecnológica. Atualmente, China e Índia são os dois países mais populosos do mundo, o que cria condições para produção em larga escala, ampliação de mercados consumidores e intensificação das relações comerciais internacionais.
Nesse contexto, o Brasil ocupa uma posição estratégica. O país passou por um intenso processo de êxodo rural ao longo da segunda metade do século XX, formando uma sociedade majoritariamente urbana. Apesar de enfrentar desafios estruturais em infraestrutura, como rodovias e portos, o Brasil possui um Índice de Desenvolvimento Humano superior ao da Índia e próximo ao da China. Embora apresente limitações educacionais e um nível de industrialização inferior ao chinês, destaca-se em setores estratégicos, como o agronegócio, a mineração, a energia e a indústria aeroespacial, sendo um dos maiores produtores de aeronaves do mundo.
No século XXI, a geopolítica desses três países mostra-se cada vez mais integrada. China e Índia atuam como motores industriais e de serviços, enquanto o Brasil se destaca como grande produtor de commodities agrícolas e minerais. Essa relação é fortalecida por fóruns como o BRICS, que ampliam a cooperação econômica, financeira e política entre essas nações. Analistas internacionais discutem, inclusive, a possibilidade de mecanismos financeiros próprios, como moedas comerciais alternativas, para reduzir a dependência do dólar.
Juntos, China, Índia e Brasil representam uma parcela significativa da economia global. O mundo atravessa uma mudança estrutural, marcada pelo deslocamento gradual do eixo econômico do Norte Global para o Sul Global. Enquanto os países do Norte enfrentam envelhecimento populacional e estagnação do consumo, o Sul apresenta crescimento demográfico, expansão de mercados e novas oportunidades econômicas. Mesmo com crescimento econômico moderado, o Brasil mantém relativa estabilidade macroeconômica nas últimas décadas. A Nova Rota da Seda chinesa, o avanço tecnológico e econômico da Índia e a força do agronegócio brasileiro formam um triângulo estratégico no comércio mundial, contribuindo para a construção de uma nova geopolítica mais distante do tradicional eixo do Norte.
Referências Bibliografica
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