O Novo Humanismo Digital
Uma evolução nas relações e crises do mundo pós moderno.
POLÍTICA
Bruno Pereira Ferreira
11/26/20253 min read
“A tecnologia nos conecta, mas também nos isola.
A inteligência artificial avança, mas a consciência humana ainda busca sentido.
Talvez o futuro dependa de um novo tipo de humanismo — mais ético, mais sensível, mais digital.”
O humanismo é uma linha de pensamento que ganha novas formas durante o Iluminismo, a partir do século XVII, recolocando o ser humano no centro da vida e da sociedade, em oposição ao teocentrismo medieval. Autores como Cassirer (1997) destacam que o Iluminismo recupera elementos já presentes na Grécia Antiga, onde o homem, a razão, a beleza e as artes tinham papel fundamental. Com o surgimento e consolidação do método científico, o ser humano passa a utilizar a investigação racional e a experimentação para impulsionar a ciência moderna.
O avanço das máquinas durante as Revoluções Industriais transformou profundamente o modo de vida, inaugurando um projeto humano voltado para a técnica e para a vida prática, mediada por máquinas, automóveis e dispositivos domésticos. Esse processo, iniciado no século XIX, acelerou-se especialmente após as duas guerras mundiais, quando o American Way of Life ganhou força como modelo idealizado de consumo e felicidade. Bauman (2001) e Morin (2014) apontam que esse modelo, baseado no consumo ilimitado, entrou em conflito com a visão mais igualitária e social-democrata adotada por vários países europeus após 1945.
No século XX, o mundo presencia avanços tecnológicos extraordinários. Já no século XXI, surge uma crise dos modelos ideológicos: países antes comunistas, como a China, adotam um capitalismo de Estado, integrando-se ao mercado global, mas mantendo forte controle político interno (Harari, 2018). Ao mesmo tempo, regiões inteiras ainda sofrem com problemas estruturais — fome, doenças, conflitos étnicos — que remontam a séculos anteriores. A ONU tem suas ações limitadas por interesses geopolíticos, o que contribui para percepções de descrédito (Ferry, 2007). Países do BRICS reivindicam maior representatividade no Conselho de Segurança, refletindo a mudança no equilíbrio global de poder.
O humanismo digital surge em meio a transformações profundas no mundo do trabalho. A automação, a robotização e a inteligência artificial modificam profissões e criam desafios relacionados à perda de empregos e à necessidade de qualificação constante (Russell, 2019). Embora o mundo esteja hiperconectado, estudos apontam que as pessoas se tornam emocionalmente mais distantes, com índices crescentes de ansiedade e outros transtornos psicológicos. Bauman (2004) descreve esse fenômeno como parte da “liquidez” das relações contemporâneas, frágeis, rápidas e pouco duradouras.
A busca por gurus, influenciadores e líderes espirituais cresce exponencialmente, fenômeno que Harari (2018) relaciona à crise de sentido em sociedades hipermodernas. Nesse contexto, o aumento do consumo de drogas ilícitas fortalece redes criminosas, enquanto o uso de drogas lícitas cresce em meio à pressão social e ao estresse cotidiano. As relações afetivas tornam-se mais frágeis e imediatistas, e parte da juventude adota uma rebeldia sem causas definidas, fenômeno já analisado por Morin (2014) quando discute a crise dos valores.
O consumo passou a determinar identidades sociais, distinções culturais e pertencimento a grupos. A sociedade fragmenta-se em “tribos” com códigos próprios de linguagem, estética e comportamento (Castells, 2011). Entretanto, essa tendência também gera rejeição por limitar a liberdade individual e promover divisão social.
O trabalho, cada vez mais mediado por softwares, dispositivos e aplicativos, passa a exigir novas formas de reconhecimento comunitário e profissional. Em uma sociedade volátil, marcada pela erosão das relações sólidas e pela perda de referenciais éticos, o novo humanismo digital emerge como tentativa de recolocar o ser humano — suas necessidades, sua ética, sua sensibilidade — no centro da transformação tecnológica.
Ao mesmo tempo, a expansão da inteligência artificial e da robótica cria oportunidades e ameaças. Bostrom (2018) alerta que uma IA sem diretrizes éticas pode gerar riscos profundos à sociedade, incluindo impacto sobre empregos, vigilância, desigualdade e autonomia humana.
Portanto, o século XXI apresenta simultaneamente crises étnicas, guerras, fragmentação cultural, hiperconsumo e avanços tecnológicos disruptivos. Construir um novo modelo de convivência humana que preserve valores éticos e morais, promova sustentabilidade e enfrente as mudanças climáticas é um desafio central do nosso tempo. Esse desafio envolve cientistas, educadores, líderes religiosos, pensadores, cidadãos e políticos — todos responsáveis por orientar o desenvolvimento tecnológico para um futuro mais humano.
Referências Bibliográficas.
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.
BAUMAN, Zygmunt. Amor Líquido: Sobre a Fragilidade dos Laços Humanos. Rio de Janeiro: Zahar, 2004.
BOSTROM, Nick. Superinteligência. Rio de Janeiro: DarkSide Books, 2018.
CASSIRER, Ernst. A Filosofia do Iluminismo. São Paulo: UNESP, 1997.
CASTELLS, Manuel. A Sociedade em Rede. São Paulo: Paz e Terra, 2011.
FERRY, Luc. Aprender a Viver. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007.
HARARI, Yuval Noah. 21 Lições para o Século 21. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.
MORIN, Edgar. Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro. São Paulo: Cortez, 2014.
RUSSELL, Stuart. Human Compatible: Artificial Intelligence and the Problem of Control. Nova York: Viking, 2019.
