Trabalho e Renda no Mundo da IA

Um processo de construção do trabalho

ECONOMIA

Bruno Pereira Ferreira

12/2/20254 min read

person in black suit jacket holding white tablet computer
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“As máquinas já não apenas trabalham, elas pensam.
A automação promete eficiência, mas ameaça milhões de empregos.
O que será do trabalho humano quando o robô se torna o novo colega de equipe?”

A história do trabalho acompanha os primórdios da humanidade, marcada pela busca constante de sobrevivência e pela adaptação às mudanças tecnológicas e sociais. Esse processo envolve avanços gradativos, muitas vezes atravessados por relações de dominação entre grupos humanos ao longo do tempo. No século XXI, o capitalismo se consolida como modelo econômico predominante, assumindo formas mais agressivas em algumas regiões do mundo.

A migração do campo para a cidade, intensificada desde a Revolução Industrial (séculos XVIII e XIX), transformou profundamente a organização do trabalho. Ao buscar melhores condições de vida e renda, milhões de pessoas encontraram nas cidades novas necessidades, serviços e oportunidades, mas também desafios de sobrevivência. O avanço tecnológico sempre esteve ligado ao desejo humano por comodidade, eficiência e entretenimento. O acúmulo de riqueza em determinados grupos sociais urbanos gerou espaços de ócio e consumo, ampliando setores como teatro, esportes, música, turismo e outras atividades culturais, ao mesmo tempo em que estimulou o surgimento de vícios, como tabaco e álcool.

Os inventos dos séculos XIX e XX — marcados pela mecanização, eletrificação, automação industrial e informatização — surgiram tanto por demandas produtivas quanto por interesses militares e científicos. Guerras, especialmente as duas Guerras Mundiais, aceleraram descobertas médicas e tecnológicas, muitas delas criadas para reduzir perdas humanas ou aumentar a eficiência bélica.

A partir da segunda metade do século XX, a urbanização global cresceu de modo acelerado. Pela primeira vez na história, mais da metade da população mundial passou a viver nas cidades (o que ocorre de fato apenas no início do século XXI). O antigo modelo de vida rural — nascer, trabalhar e morrer no mesmo território — deu lugar a um mundo centrado em serviços, comércio, transporte público e consumo. A transição do trabalho servil ou agrícola para o trabalho assalariado urbano redefiniu padrões sociais e econômicos.

A difusão de máquinas, cartões de crédito, sistemas de pagamento e tecnologias de comunicação no final do século XX ampliou as possibilidades de compra e consumo. Porém, o capitalismo contemporâneo também promoveu a obsolescência programada, gerando uma indústria de produtos descartáveis, com impactos ambientais graves, como aumento de resíduos e exploração desigual de matéria-prima. Enquanto algumas regiões sofrem com falta de mão de obra, outras enfrentam desemprego estrutural.

  • “Vivemos tempos líquidos. Nada é feito para durar.” (Zygmunt Bauman)

Nesse contexto, o trabalhador encontra-se preso à necessidade de manter seu padrão de consumo e garantir sua sobrevivência. A pressão por produtividade aumenta quadros de ansiedade, conflitos laborais e judicializações. Salários baixos, instabilidade e rápidas mudanças tecnológicas criam insegurança. A sociedade líquida descrita por Bauman aparece na fragilidade dos vínculos, nas relações efêmeras e na constante reinvenção profissional. Milhões de jovens enfrentam falta de perspectivas, enquanto o mundo lida com fome, guerras e doenças.

No século XXI, os desafios se intensificam. A Inteligência Artificial (IA), que começou a avançar rapidamente na última década, consolidou-se de forma decisiva após a pandemia de COVID-19. Cadeias produtivas foram automatizadas; bancos reduziram quadros; jornais passaram do papel ao digital, diminuindo equipes de edição e diagramação. Profissões como engenharia de computação, programação e design ganham destaque — por enquanto. A lógica tecnológica sugere que, eventualmente, essas profissões também poderão ser substituídas por máquinas, softwares ou novas formas de IA.

A IA agora escreve, calcula, compõe músicas, cria imagens, elabora projetos e produz até vídeos e filmes. Cadeias produtivas antes estáveis tornam-se voláteis. O desemprego dá lugar ao fenômeno da falta de renda, mesmo quando existe trabalho disponível, pois a remuneração não acompanha as necessidades básicas. A precarização cresce.

  • “O progresso técnico, ao invés de emancipar o trabalhador, tende a aprofundar sua dependência.” (Karl Marx)

Carros conectados a sistemas computacionais, veículos autônomos e robôs com características humanoides demonstram que a ficção científica antecipou alguns caminhos do futuro. O trabalhador moderno, confinado em apartamentos cada vez menores, enfrentando dificuldades alimentares, emocionais e relacionais, vive uma espécie de “servidão tecnológica”. Suas reivindicações muitas vezes geram novos conflitos, sem respostas definitivas em uma sociedade marcada pela velocidade, pela volatilidade e pela incerteza.

  • “A automação não é inimiga do homem, mas exige a reinvenção permanente do trabalho.” (Manuel Castells)

Referências Bibliográficas. 

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.


CASTELLS, Manuel. A Sociedade em Rede. São Paulo: Paz e Terra, 1999.


HARARI, Yuval Noah. 21 Lições para o Século 21. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.


MARX, Karl. O Capital. São Paulo: Boitempo, 2011.


RIFKIN, Jeremy. O Fim dos Empregos. São Paulo: Makron Books, 1995.


SCHWAB, Klaus. A Quarta Revolução Industrial. São Paulo: Edipro, 2016.